Estudo de Caso: Escândalo Enron – O que acontece sem governança e regulamentação


Em setembro de 2001 Osama Bin Laden comandou o maior ataque terrorista da história. Seja pela ousadia, pela grandiosidade dos alvos escolhidos ou pela repercussão dos atos, o fato foi que Wall Street quase ruiu junto à poeira das torres gêmeas.

Neste mesmo ano, os Estados Unidos tinham assistido a ascensão da Enron ao posto de sétima maior companhia do país e maior empresa energética do mundo. Viu também a empresa ser escolhida pela Fortune Magazine como “a empresa americana mais inovadora” pela sexta vez consecutiva.

Com apenas 16 anos de vida, a Enron – embora permanecesse com os negócios centrais ligados ao setor energético – atingiu o patamar de megacorporação mundial também devido ao crescimento fenomenal oriundo de suas outras atividades, como:  fibra ótica (internet) e gerenciamento de capitais de risco e derivativo climático (um tipo de seguro climático para negócios sazonais).

Entretanto, pouco tempo depois do atentado de 11/Setembro, a Enron divulgou – para agências de classificação de crédito – que  havia sofrido no terceiro trimestre de 2011 um baque de 1,2 bilhão de dólares, e que essa queda ocorrera devido a “transações ruins com outras sociedades comerciais”. Resumiram o problema a maus negócios, como resultante de algumas decisões erradas e verdadeiras “trapalhadas” feitos pelos executivos da empresa.

Grandiosa construção da Enron Center - Sede administrativa da empresa correspondia à imagem segura da mesma

Apesar da transparência na divulgação do prejuízo, os executivos da empresa não foram transparentes quanto ao real motivo do baque financeiro. Na verdade, os caras de terno já escondiam algo do mercado, dos acionistas e funcionários da empresa há algum tempo. Embora tenham feito muita bobagem e terem demonstrado incompetência em negócios realizados nos EUA, Índia, Europa e Brasil, os executivos da Enron haviam elaborado um esquema extremamente complexo de beneficiamento fiscal e contábil que maquiava os resultados da empresa e fomentava o crescimento assustador no valor de suas ações.

Em 1992, Jeff Skilling – então presidente de operações comerciais da Enron – convenceu fiscais da receita federal americana a permitir que a empresa utilizasse um método contábil, chamado “mark to market”, utilizado por empresas de corretagem e importação e exportação. Nesse modelo, o preço ou valor de um seguro é registrado em uma base diária para calcular lucros e perdas, permitindo que a Enron contasse ganhos projetados de contratos de energia a longo prazo como receita corrente. Porém, era ganho que não deveria ser recolhido por muitos anos. Era só o primeiro passo de todo o esquema formado.

Com as ações da Enron subindo assutadoramente, os executivos empenhavam-se em garantir que seus mais de 20 mil funcionários investissem cada centavo de suas economias em ações da própria empresa. Muitos prêmios eram concedidos aos empregados na forma de ativos da empresa e estes se transformaram em verdadeiros corretores ao incentivar toda a sociedade a sua volta a comprar ações da Enron. Milhares de americanos comuns ingressaram no mercado especulativo ao ver seus familiares, amigos e vizinhos “ganhando” muita grana através do mercado financeiro.

Para complementar a estratégia, a Enron formou empresas (LJM, LJM2 e outras) para movimentar débitos para fora de seus balanços e transferir riscos para seus outros negócios. Sendo que algumas destas empresas também foram utilizadas no estabelecimento de SPEs (sociedades de propósito especial) que serviam para cobrir as eventuais perdas da Enron quando o negócio começasse a cair. As organizações criadas nestes arranjos complexos:  Talon LLC, Timberwolf LLC, Bobcat LLC e Porcupine LLC foram chamadas posteriormente de Raptores. Caso queira entender um pouco mais, recomendo a leitura deste artigo de 2003 escrito por um trio de professores e contabilistas americanos: “Enron and the Raptors”.

Logo da Enron na porta de sua sede

Toda a fraude foi encoberta com uma ajuda especial da empresa de auditoria Arthur Andersen, que além de auditora contábil da Enron, também atuava como consultora na mesma empresa. Pra piorar, no meio de toda confusão ainda ordenou que a Enron desse “sumiço” em grande parte na documentação sobre a empresa e suas trapalhadas. Um literal queima de arquivo.

Em dezembro de 2001, depois que toda a poeira debaixo do tapete veio à tona, a Enron viu o preço de suas ações despencarem de U$ 86,00 para U$ 0,27 e sem condições de adiar o inevitável decretou sua falência. Levou consigo a auditora Arthur Andersen, que não conseguiria continuar com seus serviços com a reputação adquirida pelo envolvimento no escândalo Enron. Os executivos Andrew Fastow, Jeff Skilling e Ken Lay foram responsabilizados pelos atos e condenados a prisão por casos de conspiração, fraude bancária, comércio ilegal e declarações falsas.

Para aprender um pouco mais sobre este caso, sugiro que conheçam o filme/documentário “Enron – Os mais espertos da sala”. Até que consigam alugar este filme, vale assistir o vídeo abaixo.

Comente